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  Aldina Pintura
 
 

O mundo pintado como um sonho preciso

A novidade, factor tão importante no desenvolvimento da arte contemporânea, transformou-se infelizmente no contrário de si mesma: num valor seguro, em suma. Novas linguagens e novos suportes nem sempre encarnam de facto numa poética nova, em algo que torne imprescindível essa apresentação inédita, como se os "tiques" tivessem substituído os gestos.

Um artista honesto precisa de coragem, quer para propor experiências, sabendo que serão vistas com o olhar ávido, omnívoro, apenas interessado no insólito, e mesmo assim só por um instante, quer para propor a sua interpretação pessoal do já conhecido e assimilado. São duas vias ante as quais o artista não se situa desorientado, levando simplesmente a cabo o que para si é inevitável.

Ocorrem-me estas reflexões perante os quadros de Aldina, uma pintora excelente, na qual não sabemos que mais admirar: se a forma e a facilidade do traço, se a naturalidade para captar e inventar formas, se o modo como ferreamente as estrutura. Os temas previsíveis de uma mulher que pinta estão aqui: paisagens, vistas alegres ou inquietantes, rochas, dunas, o céu, o mar. Sem uma única concessão à moda, nem sombra de esgares intelectuais. Pura pintura alheia à literatura e aos conceitos.

Nestes quadros, o mais impressionante talvez seja a luminosidade que contém, espécie de excitação cromática que toma as coisas quase fosforescentes. Trata-se, na verdade, de um passeio pelo mundo, um mundo ora agressivo, ora sereno, umas vezes bom condutor do desejo, outras hostil, mas sempre transposto sem sentimentalismo nem retoques de efeito. Um mundo pintado como um sonho preciso que sugere a intimidade da artista com tudo o que a rodeia e se oferece ao espectador com a simplicidade própria do importante; uma atmosfera silente, mas de grande densidade, que a pintora sabe captar e dizer com virtuosismo e versatilidade.

A arte da Aldina revela-se em registos insuspeitados, sem nunca abandonar a direcção clara do seu processo: a conseguir com a luz e a cor expressar no quadro emblemas representativos da verdade e do "génio" de cada lugar, conservando ao mesmo tempo o seu mistério. É assim que esta pintura se aproxima da poesia.

Diga-se também que tal pintura, aqui naturalmente apresentada, como se no atelier onde foi criada ainda estivesse, pintura imediata, directa, de cronista que observa o que acontece em seu redor, se olha para fora, olha muito mais para dentro, aproximando-se tanto do objecto representado que a experiência pictórica e a vital chegam a tocar-se. E também assim se aproxima da poesia.

Ernesto Sampaio, Dezembro de 1995

   
 

S/ Título 1988. Guache, 29x20,5 cm

 

   
 

Currículo
Inicia a sua actividade artística como ceramista na Fábrica de Cerâmica Seda em Caldas da Rainha, onde recebe lições da pintora Hansi Staël, e mais tarde em Lisboa colabora com Querubim Lapa na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego.

1962. Exposição colectiva no Estoril

1963. Curso de Cerâmica da Escola de Artes Decorativas António Arroio

1964. Professora de pintura cerâmica na Escola António Arroio, onde ainda exerce a actividade. Prémio Diário Popular (uma viagem a Paris à exposição de homenagem a Picasso)

1965. Primeira exposição individual na Galeria Degrau

1966. Exposição de Maio na SNBA. Exposição de pintura individual na Galeria 111

1969. Exposição de Esmaltes na Galeria 111

1973. Exposição 73 na SNBA
1976. Exposição de Arte Portuguesa / Salão de Verão 76 na SNBA. Exposição Colectiva na Suécia (Lund). Exposição Colectiva de Gravuras dos Alunos da ESBAL.

1977. Segunda Bienal de Artes Plásticas da Festa do A vante! Exposição colectiva Mitologias Locais na SNBA

1978. Exposição de Arte Moderna na SNBA. Termina o Curso de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa Colabora no mural colectivo de professores e alunos da ESBAL em frente ao Teatro S. Luiz.

1979. Terceira Bienal de Artes Plásticas da Festa do Avante!

1980. Arte Portuguesa Hoje na SNBA. II Bienal Internacional da Arte - Vila Nova de Cerveira

1981. Artistas Solidários com os Presos de P.R.P. na ESBAL

1982. Colaboração na obra colectiva dos artistas plásticos, organizada em Santarém pela Associação 25 de Abril. IlI Bienal Internacional de Arte - Vila Nova de Cerveira

1983. Exposição Colectiva A Cidade na Galeria Ana Isabel

1984. Exposição Colectiva 1974-1984 dedicada às Comemorações do Décimo Ano do 25 de Abril na SNBA

1987. Máquinas - Exposição de Pintura na Galeria IAM. Risco lnadiáve! - Exposição de Homenagem ao Prof. Lagoa Henriques

Representada na ex. Galeria Interior com esculturas esmaltadas sobre cobre. Representada no Museu de Arte Contemporânea.
Representada em várias colecções particulares em Portugal e no Estrangeiro. Pintura reproduzida na capa do livro de José Cardoso Pires «Jogos de Azar" ed. especial da Ulisseia.
Ilustrações do livro «O Servo de Deus e A Casa Roubada» de Aquilino Ribeiro, ed. especial da Bertrand.
Ilustração do livro de poemas «Uma Faca nos Dentes» de António José Forte, ed. & etc.
Ilustrações dos livros de poemas de António José Forte «Dia a Dia Amante "Corpo de Ninguém" e "Caligrafia Ardente", ed. Hiena.
Colaboração na Antologia «Coisas» e na «Revista & etc.>" da editora & etc. Colaboração com desenhos para o guião de Virgílio Martinho «O Caminho do Poeta», a partir da poesia de António José Forte.
Colaboração para a peça de Luís Pacheco «A Comunidade» no Teatro da Cornucópia.

   
 

Exposições na Galeria Lino António
Aldina Atelier II. Dezembro de 2004 a Janeiro de 2005
Aldina Atelier. Fevereiro de 1996