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Delfim Sardo diz de Calhau que o artista desenvolveu o seu percurso
de "uma forma rigorosamente monocromática"
(in Work in Progress, Fernando Calhau, CAMJAP, 2002); iniciou-o
na pintura, na gravura e no desenho e estendeu-o à fotografia,
ao filme Super 8 mm, ao vídeo e a alguns objectos de parede
e de chão, com materiais corno o metal, o veludo e o árgon
(luz semelhante ao néon).
A matriz do seu trabalho é de natureza conceptual e serial,
repete modos de proceder. Os anos 80 consolidaram "um trabalho
sobre o suporte e a forma, a escala e a arquitectura do espaço
seco e liminar", que prepara objectos e obras como as
que vemos agora expostas. A chapa de ferro tem a dureza e o peso
que fascinaram o artista nessa época.
No interior de um quadrado de chapa de ferro assente no chão,
escreveu em tubos de luz os quatro pontos cardeais. Encapsulados
na noite, para utilizar uma expressão sua, perdemos-lhe o
norte, apesar da luz do firmamento, ou encontramo-lo graças
a ela, conforme nos dispomos ou não a dar espaço e
expressão ao medo, ao isolamento e em última instância
ao sublime que a experiência da noite convoca.
O mundo e a noite, sendo que esta refere metonimicamente o primeiro,
constituem o horizonte semântico de outra obra: "dark"
e "blue" são ambas cores da noite. Nesta
peça, a repetição da estrutura quadrada dos
suportes, superfícies de veludo preto ou de chapa de ferro
crua, cria na parede a linha de horizonte e o lugar "paisagístico
que todo o seu trabalho denega: This is not a Landscape",
dirá a terceira obra aqui exposta, desenhada a tubos de luz
sobre a parede e curiosamente, sem fundo delimitado.
Se a delimitação geométrica e o confinamento
do espaço (as caixas, os quadrados, o negro, o peso dos materiais)
são uma gramática essencial no trabalho de Calhau,
a declaração de que é feita esta obra vive
da abertura espacial infinita. E é por essa abertura ou por
aquele confinamento que se esvai, por razões opostas mas
ambas reais, a possibilidade da paisagem.
Entretanto a palavra, redundante, deíctica, reduzida ao essencial,
escultórica e simétrica como as formas, luminosa,
acende nesta "noite" genérica do trabalho de Calhau,
a presença possível do humano que com ela se debate.
Leonor Nazaré |
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Currículo
Após o Curso Complementar de Pintura da ESBAL, em 1973, frequenta
estudos de pós-graduação na Slade School of Fine
Art, em Londres, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian.
Realiza a sua primeira individual em 1958. A série Night Works,
na SNBA, em 1978, marca uma viragem no seu percurso por afirmar opões
formais e conceptuais que serão uma constante a partir daí.
Realizará várias exposições individuais em
galerias comerciais, sobretudo na Galeria Quadrum, na Galeria Cómicos/Luís
Serpa e na Galeria Pedro Oliveira, sendo a última realizada em
2001 na Galeria Cristina Guerra. A iniciativa Slow Motion dedicou-lhe
uma das suas edições, no ano 2000, nas Caldas da Rainha.
No ano de 2001. o CAMJAP dedica-lhe duas exposições individuais:
O Passageiro Assediado, acompanhada de um livro com a colaboração
de Clara Ferreira Alves, e Work in Progress, comissariada por
Delfim Sardo.
De um conjunto muito vasto de colectivas destaquem-se, por exemplo, 20
Anos do Gravura, na Fundação Gulbenkian em 1976, Alternativa
Zero em 1977, XI Biennale de Paris, em 1980, a III Exposição
de Artes Plásticas da F.C.G. em 1986, Anos de Ruptura
- Uma Perspectiva da arte Portuguesa dos Anos 60, em 1994, no Palácio
Galveias, Circa 1968, em 1999 no Museu de Serralves e Prémios
EDP de Pintura e Desenho, no Palácio da Ajuda, em 2000.
Convocação I e II (Modo Menor e Modo Maior) reuniu
no CAMJAP, de Novembro de 2006 a Abril de 2006, inúmeras obras
da importante doação feita ao museu pela viúva do
artista. |